Mariboi 20 Anos

Artigos Técnicos

Condição Corporal e a eficiência reprodutiva

A eficiência reprodutiva de rebanhos tem sido alvo de intensos debates, mas as discussões sobre o tema ainda parecem longe do consenso. De um lado, há os que atribuem a baixa eficiência reprodutiva a particularidades hormonais e genéticas próprias da base de matrizes e zebus e azebuadas do Brasil, aos aspectos sanitários e ao manejo reprodutivo. De outro, estão os que apontam fatores nutricionais decorrentes da sazonalidade da produção de pastagens, a falta de adubação e manejo da forrageira e a sub-mineralização do rebanho como as origens do problema.

Na prática, verificamos que todos os fatores estão intimamente ligados e devem ser considerados globalmente. A despeito das divergências, verifica-se que a pecuária brasileira evoluiu e muito graças ao esforço técnico da pesquisa, dos investimentos das empresas privadas e da extensão rural. A adoção de novas técnicas de manejo de pastagens, de melhoramento genético e cruzamentos; o uso de minerais proteinados/energéticos e a melhoria do manejo reprodutivo e sanitário, proporcionaram, nos últimos 20 anos, um ganho de 21% na eficiência reprodutiva dos rebanhos.

A taxa de produção de bezerros em relação ao número de matrizes saltou de 59,5% para 72% no período, o que reflete uma maior taxa de concepção e uma menor mortalidade de bezerros.(ver quadro abaixo)

Ano

Produção de Bezerros

Nº de matrizes

Taxa(%)

1983

27.169.961

45.663.800

59,5%

1993

36.202.425

52.292.347

69,2%

2003*

43.877.495

60.962.854

72%

(Anualpec 2003) * Estimativa FNP

O anestro pós-parto

Embora tenhamos evoluído bastante, o anestro pós-parto ainda é um problema real, que se caracteriza pela ausência temporária das manifestações externas do cio, provocadas pela baixa atividade ovariana com interrupção do ciclo estral. Teoricamente, após a involução uterina, que pode durar de 30 a 60 dias após o parto.Deste modo, a fêmea estaria pronta para iniciar nova gestação, produzindo, assim, uma cria por ano. Mas, com freqüência, fatores hormonais, nutricionais e sanitários que têm efeito direto sobre o anestro pós-parto influenciam individualmente ou em conjunto o retorno tardio do cio, fazendo com que o intervalo entre partos seja superior a 12 meses.

Fatores sanitários

Alguns problemas sanitários podem ser solucionados com relativa facilidade por meio do uso de produtos específicos e com a adoção de um bom programa de controle de endo e ectoparasitos, evitando-se, assim, perdas de peso ao redor de 60kg/animal/ ano. Vacinações sistemáticas contra IBR, brucelose, clostridioses, aftosa também contribuem positivamente, mas, infelizmente, ainda são encaradas por alguns segmentos como "despesas" adicionais, quando, na verdade, fazem parte do conjunto de procedimentos indispensáveis para o sucesso da criação. Prejuízos, sim, causam a aftosa, a brucelose, a verminose e outras doenças. Deficiências nutricionais de vitaminas e alguns minerais podem também aumentar a retenção de placenta provocando, por vezes, infecções uterinas e atraso no retorno do cio. Talvez por falta de informação, muitos atribuem erroneamente a ocorrência de abortos ao uso de suplementos minerais, quando, na verdade, o problema tem uma das causas na ausência de vacinação contra brucelose. Muitas vezes as "conclusões" são tiradas antes mesmo da necessária solicitação de exames a um veterinário.

Fatores hormonais

Após o parto, a mamada do bezerro estimula a produção de hormônios que diminuem a concentração de hormônio luteinizante (LH) no organismo, o que interfere na maturação e rompimento dos folículos ovarianos, impedindo a ovulação. O fato, somado a uma baixa condição corporal provocada por subnutrição, causa a interrupção do ciclo estral. Hoje são usadas, com bons resultados, técnicas especiais de manejo para indução do cio tais como a desmama precoce para quem usa creep feeding e a desmama temporária por 48 a 72 horas, feita por volta do 40º dia após o parto. A interrupção do reflexo da mamada restabelece a produção do LH e provoca o retorno ao cio. Porém, o sucesso destes métodos depende fundamentalmente da condição corporal dos animais. Vacas emaciadas, muito magras, não respondem bem ao tratamento. As vacas com condição corporal média respondem prontamente e, vacas com condição corporal boa, por vezes sequer necessitam deste manejo, pois retornam ao cio com maior facilidade. Já a vaca excessivamente gorda também tem anestro e dificuldade de ciclar. Isto prova que fatores hormonais e nutricionais estão intimamente relacionados.

Fatores Nutricionais

Condições das pastagens

Em uma pecuária de pasto como a brasileira, a sazonalidade de produção das pastagens e a "falta de costume" de tratar o pasto como uma lavoura, limitam e muito a produtividade. Verifica-se que o cio das vacas também é sazonal, pois a maioria destas ciclam apenas quando as condições de pasto são ótimas e, mais uma vez, a lucratividade da pecuária fica a mercê dos fatores climáticos. Um dos maiores problemas está na grande área de pastagens degradadas necessitando de adubação, reforma, ou apenas de um bom manejo. Reservar uma área de pastagens para o inverno é uma ótima pratica, infelizmente pouco empregada. Hoje, graças ao uso dos suplementos minerais proteinados, é possível alcançar ótimo desempenho dos rebanhos, especialmente por conta da manutenção da condição corporal, proporcionando fertilidade às vacas mesmo no inverno. Pasto seco parou de ser problema. O que persiste é a falta de volumosos, pasto, mesmo seco ou outra reserva, como cana, capineira, silagem ou feno. Uma prática que tem dado certo é vedar entre 20% e 25% de pastos da propriedade e reservar para o período seco. Suplementos minerais proteinados não substituem o pasto, apenas melhoram o seu consumo e a digestibilidade . Muitos procuram, sem sucesso, soluções milagrosas tais como novas variedades de pasto que produzem sem adubo ou que não secam no inverno e não sofrem com as geadas. Milagre mesmo faz o gado que transforma alimentos fibrosos em carne e leite. Isto sim deve ser valorizado.

Suplementos minerais

Existem eficientes empresas fabricantes de suplementos com produtos bem formulados que atendem a necessidades específicas de cada categoria animal. Mas a eficácia da mineralização na produção está ligada à boa indicação do produto.Os produtos disponíveis estão segmentados, em função da demanda, por estação do ano (inverno e verão), por categoria animal e fase de produção. Observarmos na pecuária de corte brasileira a submineralização dos rebanhos, por falta de orientação no uso do suplemento correto. Lamentavelmente, ainda há práticas nocivas como aquelas em que produtos prontos para uso são diluídos em um ou mais sacos de sal comum para "reduzir custos". A subnutrição acontece aos poucos, sendo mais fácil de ser identificada em propriedades de cria. Isto porque as vacas representam a "fotografia nutricional" do rebanho, tanto por permanecerem por mais tempo na propriedade como também por ser a categoria animal que mais precisa de nutrientes, acumulando as demandas para sua manutenção, lactação e gestação. Quando faltam nutrientes, sintomas como ausência de cio, retenção de placenta, emagrecimento, crias pequenas e fracas são os mais comuns.

Na verdade, a fêmea tem uma espécie de "hierarquia de necessidades" fisiológicas que se iniciam segundo Short et al.,1980 com :

1. Metabolismo basal   6. Lactação
2. Atividade física   7. Reservas de energia
3. Crescimento   8. Cios e inicio da gestação
4. Reservas de energia   9. Reservas de excesso
5. Gestação    

A boa condição corporal na época do parto é fundamental para que haja um retorno mais rápido ao cio. As reservas corporais (gordura) e uma boa alimentação pré e pós-parto são especialmente importantes pois a vaca gasta muita energia no início da lactação, normalmente mais do que consome, entrando no chamado déficit energético. Neste momento são mobilizadas suas reservas de gordura como forma de compensação, causando emagrecimento. Caso as condições de alimentação, incluindo pasto e mineral, não sejam satisfatórias, a vaca se "economiza" parando de ciclar, já que a lactação e o bezerro são mais importantes que entrar em cio.

Condição corporal

A determinação da condição corporal é uma forma de pontuar o estado da vaca observando-se a presença de gordura e musculatura em algumas partes do corpo.

Localização da cobertura Muscular e de Gordura no corpo

• processo transverso da coluna vertebral , lombo próximo ao vazio

• ossos da bacia e costelas

• musculatura das ancas (côncava, plana ou convexa)

• musculatura do coxão

• região dorso-lombar ,espinhas dorsais

• cobertura da paleta

• cupim, pescoço e maçã do peito

• inserção da cauda.

Em uma escala de 1 a 9, o ideal é que a fêmea esteja entre 5 e 7 antes do parto. A condição acima de 7 pode ficar antieconômica por ser difícil conseguir pasto e, a inferior a 5, causa anestro mais prolongado em 90% dos casos. As vacas têm deficiências múltiplas, não só de minerais mas também de vitaminas, proteínas e energia. As primíparas devem parir com condição 6 pois sofrem maior estresse e desgaste, o que resulta em um maior período de anestro.

Escore

Condição

Características

1

MAGRO -

M

A

G

R

O

Animal extremamente magro, emaciado

2

MAGRO

Animal muito magro. Processo transverso, espinhas dorsais e costelas proeminentes.

3

MAGRO+

Animal magro. Processo transverso e costelas visualizados individualmente, mas não tão salientes. Inserção da cauda proeminente.

4

MÉDIO -

M

É

D

I

O

Animal regular. Processo transverso levemente coberto. Costelas e ancas claramente visíveis.

5

MÉDIO

Animal regular a bom. Costelas visíveis com pouca cobertura de gordura. Processo transverso e espinha dorsal pouco visível.

6

MÉDIO +

Animal muito bom, com cobertura nas costelas. Espinhas dorsais não visíveis, mas são facilmente sentidas com apalpação.

7

GORDO -

G

O

R

D

O

Animal gordo e bem coberto, mas o depósito de gordura não é marcante. Acúmulo de gordura na região da garupa.

8

GORDO

Animal muito gordo. Processo transverso não visível ou palpável.

Gordura sobre costelas, garupa e inserção da cauda e vulva.

9

GORDO +

Animal extremamente gordo. Estruturas ósseas não visível ou palpável, com pressão firme, gordura acentuada na cauda e peito.

Fonte: Nicholson e Butterworth (1986).

Misturas múltiplas e a condição corporal

Com o surgimento da tecnologia das misturas múltiplas de proteinados e energéticos, houve um avanço enorme de produtividade. Até então não havia muitas alternativas para as grandes propriedades com gado em regime de pasto na época seca. A conservação de forragens através de silagem e feno, o uso de capineiras, cana, e o plantio de pastagens de inverno, envolvem investimentos em máquinas e mão de obra, elevando custos. As misturas múltiplas vieram suprir as deficiências dos pastos com os chamados suplementos proteinados, desenvolvidos para evitar, principalmente, o déficit protéico das pastagens no período seco, com o objetivo de alimentar a microbiota ruminal. A microbiota do rúmen, composta por bactérias, fungos e protozoários, necessita de uma pastagem com nível mínimo de 7% de proteína bruta para que a população destes microorganismos não seja comprometida. Entretanto, na seca o nível de proteína do pasto fica inferior a 3%, reduzindo a presença destes microorganismos em até 50%, comprometendo o consumo e a digestibilidade do pasto, causando emagrecimento. O uso de produtos proteinados restabelece e contribui para a manutenção da população destes microorganismos, aumentando o consumo voluntário e a digestibilidade das forrageiras de baixa qualidade e palatabilidade. O uso de uréia, proteína verdadeira e energia(farelos de soja, algodão, milho etc..) , adicionados ao suplemento mineral, veio resolver de forma econômica as perdas de peso e produtividade comumente ocorridas neste período, chegando a promover ganhos por volta de 300gr/ dia a pasto.Vacas e novilhas com condição corporal inferior a 5 devem ser suplementadas com energia, proteínas e vitaminas ADE pelo menos 120 dias antes do parto, pois é também no terço final da gestação que o bezerro cresce 2/3 do seu tamanho.

Caso não haja oferta adequada de volumosos, pode-se comprometer o resultado, pois nem suplementos nem rações substituem a falta de volumoso ou pasto. Esta tecnologia vem possibilitando melhorias fantásticas no desempenho reprodutivo do rebanho com a manutenção corporal das fêmeas até o parto.

Na prática

Em experimento recente, na Fazenda Santa Clara (MG), de propriedade de Sergio Carlos Brogna Filho, médico veterinário especialista em reprodução, e de sua esposa Ana Cristina Navarro Brogna, marca CS localizada no município de Prata provou que, mesmo em condições consideradas difíceis - seca, capim maduro – o uso adequado de suplementos pode gerar resultados surpreendentes. O experimento, consistiu na avaliação do desempenho reprodutivo de 300 fêmeas e 7 touros da raça nelore no período de estação de monta de 4 meses, com o uso de suplementos minerais proteinados e suplementos mineralizados em condições de pasto.

Condições gerais da propriedade

Fazenda Santa Clara,

área de pastagem: 200 alqueires paulistas

Divisões: 11 divisões com 11 cochos cobertos de 6 metros

Variedades de pasto: 8% Mombaça;12% Dictioneura; 5% Jaraguá; 40% Decumbens; 25% Brizanthão; 10% Humidícola;

Tipo de animais: nelore

• 190 vacas de 6 a 9 anos com bezerro ao pé.

• 60 primíparas

• 50 novilhas

• 7 touros de 3 anos adquiridos dos criadores Aquiles Scatena Simioni, Fazenda Marinheiro e Eliezer Tavares de Souza Fazenda Varanda

• relação touro vaca 42:1

• Período: dezembro 2002 a abril 2003 4,5 meses

Manejo aplicado

Sanitário:

A fazenda Santa Clara foi escolhida por ter adotado um rigoroso programa sanitário, que inclui a prática corriqueira de realização de vermifugações, com alternância dos princípios ativos e em três épocas do ano (início de dezembro, fevereiro e junho). Vacina-se também o gado contra aftosa, brucelose, IBR e clostridioses, doenças que se não controladas poderiam mascarar qualquer resultado.

Reprodutivo :

A estação de monta durou 4,5 meses, com início em dezembro de 2002 e término em abril de 2003. Seu início foi protelado devido ao atraso da temporada de chuvas na região em 2002. A relação touro vaca foi alterada disponibilizando-se 1 touro para cada 42 vacas. Os jovens touros da raça nelore, nascidos em 2000, deram conta do recado.

Nutricional:

Devido à seca prolongada que durou até dezembro de 2002 e ao estado do pasto, o produtor vinha fornecendo um produto protéico/energético com 36gr de fósforo, 40% de proteína e 1200Kcal/kg e energia metabolizável com vitaminas A, D3 e E, em Pó e probiótico contendo 4 bactérias ruminais. Formulado especialmente para estação de monta e atendimento das necessidades de vacas e touros, o consumo deste produto foi de 320 gramas por animal ao dia, o que proporcionou a ingestão de 11,52 gramas de fósforo/dia, o suficiente para complementar as necessidades de fósforo e vitaminas. As vitaminas são substâncias praticamente inexistentes nas forragens secas e as reservas no fígado rapidamente se esgotam em 3 meses de seca intensa. O probiótico foi ministrado junto ao suplemento, com o objetivo de proporcionar uma maior digestibilidade do capim por bactérias especializadas na digestão de celulose. Após a normalização das chuvas e rebrota dos pastos, no final de janeiro, passou-se a ministrar suplemento mineralizado, com 80gramas de fósforo/kg ainda com vitaminas e probiótico, com consumo por volta de 112 gramas por cabeça ao dia. O produto continuou sendo ministrado após a estação de monta, até o inicio do último inverno.

Principais resultados

De um total de 300 fêmeas, obteve-se uma média de 92% de positivas confirmadas, sendo:

• 190 vacas com idade entre 6 e 9 anos: 97% positivas;

• 50 novilhas: 94% positivas;

• 60 primíparas: 75% positivas

Embora a seca tenha sido prolongada, o pasto forneceu razoável quantidade de matéria seca e, com o uso do suplemento proteinado/energético, foi possível manter as vacas em condição corporal média por volta de 5, sendo as novilhas e primíparas em torno de 5,5. "A vacada pariu bonita e não emagreceu muito depois do parto", observou Wallas Correa Fandin, o " Bibite", gerente da fazenda Santa Clara.

Na estação de monta do ano anterior foi usado somente um produto mineralizado e obteve-se 83% de prenhês . Houve um aumento de 9% na eficiência reprodutiva com 27 bezerros desmamados a mais. Com valor médio na desmama de R$ 350,00/cabeça, a receita aumentou em R$ 9.450,00. "Foi o melhor resultado que atingimos na propriedade com esta quantidade de touros", afirma Dr. Sergio Brogna. As primíparas também surpreenderam ao manifestar cio antes de transcorridos pelo menos 120 dias pós- parto.

Marco Antonio Bensimon Gomes

Zootecnista,

Diretor Técnico da Mariboi Nutrição Animal, responsável pelo setor de pesquisa e desenvolvimento

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